Prezado Sr. Cortez:
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ, por
sua sigla em inglês) envia a presente para condenar as recentes
ameaças e ataques violentos aos jornalistas guatemaltecos. Considerando
que as eleições presidenciais e legislativas estão
fixadas para o dia 9 de novembro, nos preocupa que estes incidentes
possam se multiplicar e, com isso, aumentar a autocensura no meio jornalístico
e evitar que os guatemaltecos participem de um debate político
aberto e positivo.
De acordo com as investigações do CPJ, os seguintes jornalistas
foram ameaçados ou atacados nos meses de maio e junho:
1. José Rubén Zamora, presidente do conselho editorial
do diário elPeriódico e que foi agraciado com o
Prêmio Internacional à Liberdade de Expressão do
CPJ, foi atacado em sua casa em 24 de junho por um grupo de agressores
que retiveram a ele e a sua família por duas horas. Zamora declarou
ao CPJ que, por volta das 8h30, 11 homens e uma mulher fortemente armados
e que se identificaram como agentes do Ministério Público,
irromperam em sua casa, na Cidade da Guatemala, e o retiveram junto
com sua família e empregadas domésticas por duas horas.
Os agressores apontaram uma pistola para sua cabeça, o levaram
a outro aposento e disseram que iam executá-lo. O filho menor
de Zamora, de 12 anos, recebeu golpes nas costelas; e o filho mais velho,
de 24 anos, foi golpeado na cabeça ao tentar defender o irmão.
Antes de irem embora, os homens roubaram seus cartões de crédito
e três armas de sua coleção. Os agressores disseram
a Zamora que conheciam a rotina de sua família e que iam mata-lo
se denunciasse o fato. Um dos agressores disse a Zamora que ele "incomodava
muito", e que ele devia 200 mil quetzales (25 mil dólares norte-americanos)
por haver evitado que os demais membros do grupo machucassem sua família,
e que não sabia qual era o problema que Zamora tinha com a "gente
de cima".
Zamora disse ao CPJ que um grupo clandestino que tem ligações
com o Estado poderia ter sido responsável pela agressão.
Zamora publicou numerosos artigos, o mais recente na última segunda-feira,
23 de junho, em que sustenta que, ainda que a Guatemala tenha tido eleições
livres, havia um poder superior formado por ex-oficiais do exército
que estava à frente do país. Além disso, Zamora
escreveu que o candidato do partido governista, o ex-ditador e general
reformado Efraín Ríos Montt, era parte deste aparato.
2. Edgar René Sáenz, apresentador do programa de opinião
"Somos de Hoy", da cidade de Sololá, capital do departamento
de Sololá, foi ameaçado por indivíduos não
identificados. Segundo o jornalista, por volta das 13h00 do dia 16 de
maio, uma pessoa se aproximou, cumprimentou-o e disse "cuide das suas
costas". O sujeito garantiu que Sáenz iria ter problemas pelos
temas que estava abordando no programa. O homem, que aparentemente não
era da região, logo se foi. Posteriormente, a partir de 12 de
junho, Sáenz começou a receber ameaças telefônicas,
geralmente entre 23h00 e 01h00. A pessoa que ligou disse "Filho da puta,
a tua hora já vai chegar".
Sáenz é, também, correspondente no sudoeste guatemalteco
dos jornais Prensa Libre e Nuestro Diário e da
cadeia de rádio Emisoras Unidas, e vinculou as ameaças
a comentários realizados em seu programa de rádio sobre
o prefeito em exercício de Sololá. No programa, Sáenz
declarou que o prefeito em exercício não se preocupava
com o tema do meio ambiente na comunidade. Sáenz também
denunciou que o governo municipal havia autorizado a apropriação
de bens municipais por particulares. Em 12 de junho, depois que Sáenz
comentou um caso de prática médica inadequada no Hospital
Nacional de Sololá, um funcionário do hospital foi demitido.
Sáenz considera que as ameaças são represálias
por estas denúncias e são provenientes de funcionários
municipais ou de funcionários do Hospital Nacional.
3. Alberto Sandoval, diretor da Radio Tamazulapa, emissora da
cidade de Jutiapa, departamento de Jutiapa, recebeu uma ameaça
telefônica. A chamada anônima foi feita para um dos telefones
da emissora por volta das 7h30 quando Sandoval, que produz um noticiário
matutino e um vespertino, estava ao microfone. A pessoa que ligou disse:
"Vamos te matar a tiros, deixa de falar do nosso candidato". Um operador
de rádio, que recebia as chamadas dos ouvintes, não deixou
que a ameaça fosse ao ar.
Sandoval vinculou as ameaças a denúncias que fez em maio
sobre manobras políticas empregadas por líderes de um
partido político com o pressuposto objetivo de manipular os eleitores
e engana-los sobre a popularidade de alguns de seus pré-candidatos
á prefeitura de Jutiapa.
4. Pablo Efraín Rax, diretor do programa informativo "La
Noticia", transmitido pela Radio Cobán, emissora do departamento
de Alta Verapaz, recebeu várias ameaças telefônicas
anônimas em seu telefone celular, a partir de 13 de maio. A pessoa
que ligou disse: "Tenha cuidado, não fale mais do que deveria
falar". Dez dias depois, Rax recebeu outra ameaça telefônica
com mensagem similar. A última ameaça ocorreu em 30 de
maio, quando uma pessoa garantiu ao jornalista: "Estamos seguindo seus
passos".
Rax acredita que a mesma pessoa realizou as três ligações,
e acha que as ameaças podem estar relacionadas com versões
difundidas por "La Noticia", emissora que informou, no início
de maio, que a polícia havia descoberto várias pistas
clandestinas em Alta Verapaz que, presumivelmente, eram utilizadas por
narcotraficantes. Rax também disse que "La Noticia" havia transmitido
denúncias contra o governo e membros do partido oficial.
Estamos conscientes de que o escritório chefiado por V.Sa entrou
em contato com alguns dos jornalistas mencionados anteriormente, e valorizamos
as recentes medidas que foram anunciadas na reunião realizada
em 13 de junho com a Comissão de Liberdade de Imprensa da Associação
dos Jornalistas da Guatemala (APG). De acordo com um comunicado da APG
datado de 17 de junho, V. Sa propôs o desenho de uma estratégia
conjunta para prevenir atos contra jornalistas, particularmente na atual
conjuntura eleitoral. V. Sa também mencionou a criação
de uma linha telefônica especial para denunciar ataques contra
jornalistas. Consideramos que tais iniciativas não podem ser
eficazes se os ataques aos jornalistas não forem tratados com
a seriedade e urgência que merecem, e os responsáveis pelos
atos permanecerem impunes.
Portanto, apelamos para que realize uma investigação imediata
e exaustiva destes atos intimidadores contra jornalistas e que os autores
sejam julgados. À medida que se aproximam as eleições,
é crucial que os jornalistas possam informar com liberdade sobre
os candidatos e demais temas de interesse para todos os guatemaltecos.
Agradecemos por sua atenção. Esperamos sua resposta.
Atenciosamente,

Ann K. Cooper
Diretora-executiva