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O CPJ está chocado com informações sobre a tortura de equipe jornalística

Nova York, 2 de junho de 2008--O Comitê para a Proteção dos Jornalistas está chocado com as alegações de que uma milícia com ligações com a polícia local seqüestrou e torturou uma repórter, um fotógrafo e um motorista que estavam trabalhando disfarçados em uma favela do Rio de Janeiro. O CPJ pede às autoridades brasileiras que conduzam uma investigação completa.

"Nós estamos horrorizados com as informações de O Dia de que dois jornalistas e um motorista foram seqüestrados e brutalizados, disse o Coordenador Sênior do Programa das Américas do CPJ, Carlos Lauría. "As autoridades brasileiras devem investigar completamente as ligações entre os captores e a polícia local, e devem levar os responsáveis pelo crime à Justiça".

De acordo com uma reportagem especial publicada no domingo pelo jornal O Dia, do Rio de Janeiro, um fotógrafo e um motorista que trabalhavam disfarçados para uma reportagem na favela do Batan, localizada na Zona Oeste da cidade, foram seqüestrados em um bar local por vários homens armados usando toucas ninja na noite de 14 de maio. Os agressores os conduziram para a pequena casa que O Dia havia alugado no Batan; lá, a repórter foi levada sob a mira de um revólver para um carro com os outros dois, informou o jornal em sua matéria especial. Temendo retaliações, O Dia não identificou os jornalistas ou o motorista.

Os jornalistas e o motorista foram conduzidos para uma casa próxima, onde foram repetidamente agredidos pelos homens mascarados, receberam choques elétricos, tiveram sacos plásticos enfiados em suas cabeças, e foram ameaçados de morte, contou O Dia. Ao menos um dos agressores se identificou como membro da polícia local. Por volta de 4h30, depois de serem mantidos por aproximadamente sete horas, os funcionários de O Dia foram libertados com a condição de não identificar seus captores, informava a reportagem.

Alexandre Freeland, Diretor de Redação de O Dia, afirmou em uma declaração pública divulgada pelo jornal que os repórteres estavam recebendo tratamento médico e psicológico. De acordo com Freeland, O Dia informou o governador Sergio Cabra e a polícia sobre o ocorrido. Na matéria, o jornal afirma que atrasou a divulgação do seqüestro até agora para não atrapalhar as investigações da polícia.

No domingo, Cabral disse que o seqüestro relatado era "absolutamente intolerável" e que as autoridades conduziriam uma investigação rigorosa, segundo os informes da imprensa. A imprensa local noticiou que, de acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, existe uma investigação em andamento na Corregedoria da polícia do Rio de Janeiro.

Segundo O Dia, a equipe estava trabalhando na favela do Batan desde 1º de maio. Eles estavam investigando como as milícias dirigiam o Batan, cobrando os residentes por proteção, controlando um curral eleitoral e vendendo ilegalmente gás e TV a cabo. A Associated Press informou que as milícias haviam se instalado em aproximadamente 15% das comunidades pobres durante o último ano, cobrando dos residentes até US$ 14 (cerca de R$ 24,00) por mês por proteção contra a violência de narcotraficantes. As milícias são formadas por policiais da ativa, ex-policiais, bombeiros, agentes de segurança privada e guardas prisionais, informou a AP.

Hoje faz seis anos que o premiado repórter da TV Globo, Tim Lopes, desapareceu na Vila Cruzeiro, outra comunidade pobre do Rio de Janeiro, enquanto trabalhava em uma reportagem sobre a suposta exploração sexual de menores em festas promovidas por traficantes de drogas. Lopes foi encontrado morto 10 dias depois. Ele havia sido torturado e assassinado com uma espada. Em 2005, seis acusados foram julgados, condenados e sentenciados a mais de 20 anos de prisão cada. Um sétimo acusado, cujo testemunho ajudou a condenar do outros seis homens, foi mais tarde sentenciado a nove anos e quatro meses de prisão. O autor intelectual também foi condenado e sentenciado a 28 anos de prisão.



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