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O CPJ pede a ação do governo após a escalada de violência contra a imprensa

Nova York, 19 de setembro de 2008 - Após a crescente onde de violentos ataques e ameaças contra jornalistas que cobrem o conflito civil em diferentes regiões da Bolívia, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) exortou hoje as autoridades nacionais e estaduais a assegurarem que todos os meios de comunicação possam realizar seu trabalho informativo em liberdade.

Pelo menos 18 pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas na última semana. Fortes protestos antigovernamentais eclodiram quando grupos da oposição pediram a restituição do imposto sobre hidrocarbonetos e maior autonomia. Os grupos também se opõem a uma reforma constitucional, segundo informações da imprensa local e internacional. O Presidente Evo Morales e governadores da oposição começaram, na quinta-feira, uma rodada de negociações com a intenção de abrandar a séria crise política.

"É alarmante que jornalistas sejam atacados e impedidos de cobrir o conflito que está afetando a Bolívia" destacou Carlos Lauría, Coordenador Sênior do Programa das Américas do CPJ. "Instamos as autoridades nacionais e estaduais a assegurarem que todos os meios de comunicação, e não somente os estatais, tenham acesso livre de obstáculos a todas as regiões de conflito e que possam cumprir seu trabalho sem temor de represálias".

Na madrugada de terça-feira, agressores não identificados detonaram um explosivo de fabricação caseira nos escritórios da televisão privada Canal 9, da rede UNO, na cidade de Cochabamba, no centro do país. Ninguém ficou ferido no ataque, que provocou sérios dados materiais de acordo com o jornal Los Tiempos de Cochabamba. A emissora havia recebido ameaças antes do ataque, afirmou a Associação Nacional de Imprensa em um comunicado. As autoridades iniciaram uma investigação sobre o incidente.

Também na terça-feira, por volta de 01h00, uma equipe da televisão privada PAT foi insultada e atacada com pedras por um grupo de militantes pró-governo enquanto cobria um protesto em El Alto, próxima da capital do país, La Paz.  O técnico Miguel Chuquimia recebeu atendimento hospitalar em razão de um corte em uma das suas sobrancelhas, segundo o diário La Razón, de La Paz. Ao mesmo tempo, um grupo de estudantes universitários de L Paz tentou entrar a força nas dependências das cadeias privadas PAT e Unitel, mas forças policiais dispersaram o grupo com gás lacrimogêneo antes que pudesse ingressar nos edifícios, de acordo com o La Razón.

O jornalista Christian Peña e o fotógrafo Angel Farell, do jornal El Deber, de Santa Cruz, foram atacados no domingo por um grupo de camponeses simpatizantes do governo, segundo o grupo regional de imprensa Instituto Prensa y Sociedad (IPYS), Os dois repórteres cobriam um confronto entre camponeses e grupos de oposição que tentavam liberar uma rua bloqueada na cidade de Tiquipaya, informou o IPYS. Os jornalistas do El Deber foram jogados ao chão e agredidos com paus. Peña conseguiu escapar, embora tenha sofrido algumas contusões, enquanto Farell foi seriamente ferido na cabeça e necessitou receber 15 pontos, informou o El Deber.

A Associação Nacional de Imprensa e outros grupos de imprensa indicaram que o exército boliviano impediu vários jornalistas de meios de comunicação privados de cobrirem o período que se seguiu aos violentos confrontos na cidade de Cobija, no departamento [estado] de Pando, onde mais de 12 pessoas morreram no fim de semana. Um jornalista do diário La Razón e repórteres das emissoras de televisão privadas PAT e ATB foram obrigados a regressar a La Paz, pois o exército sustentou que Cobija não era seguro para a imprensa, informou o La Razón. A Associação Nacional de Imprensa e vários meios de comunicação bolivianos afirmaram que integrantes da emissora estatal de televisão Canal 7 receberam tratamento preferencial ao terem permissão para permanecer em Cobija.

Em outro incidente, ocorrido no sábado, a jornalista Claudia Méndez, da rede privada de televisão PAT, foi atingida no tornozelo por uma bala perdida enquanto cobria uma operação militar no aeroporto de Cobija, informou a imprensa local.

Em 9 de setembro, ativistas da oposição na cidade de Santa Cruz de la Sierra irromperam com violência nas dependências de dois meios de comunicação estatais, destruindo equipamentos e forçando a interrupção das transmissões no marco de duas semanas de protestos antigovernamentais. 

"O momento histórico da Bolívia", um informe especial do CPJ publicado em 2007, concluiu que as crescentes tensões étnicas e de classe na sociedade boliviana têm alimentado o ressentimento entre o governo do Presidente Evo Morales e os meios de comunicação privados. Durante o último ano, aumentaram as tensões entre a maioria indígena do país e a cidade de Santa Cruz, região rica de terras baixas no leste do país, dominada por uma elite de descendentes de europeus.

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