Em seu censo anual de jornalistas presos, divulgado hoje, o CPJ apurou que 136 repórteres, jornalistas e fotojornalistas estavam encarcerados em 1º de dezembro, 11 a mais que na pesquisa de 2008 (Leia informações detalhadas sobre cada jornalista preso, em inglês). Uma investida massiva no Irã, onde 23 jornalistas estão detidos, acelerou o aumento global.
A China continua sendo o país com o maior
número de jornalistas presos no mundo, uma desonra mantida por 11 anos
consecutivos. Irã, Cuba, Eritréia e
Mianmar se unem à China nos cinco primeiros lugares entre os 26 países que
encarceram jornalistas. Cada uma destas cinco nações tem figurado de forma
persistente entre os cinco países com maior número de jornalistas presos.
No mundo, ao menos 60 jornalistas freelancers estão presos, quase o dobro
do número existente há três anos. As pesquisas do CPJ
indicam que este número aumentou de modo paralelo a duas tendências: a Internet
permitiu que jornalistas, individualmente, publicassem informações por sua
própria conta; e alguns grupos noticiosos dependem cada vez mais de jornalistas
freelancers para cobrir notícias
internacionais como parte de um esforço para reduzir custos. Os jornalistas freelancers, que frequentemente não
possuem o mesmo apoio legal e financeiro que os funcionários dos grupos
noticiosos, são particularmente vulneráveis à prisão.
“Os dias em que os jornalistas cobriam
situações perigosas sabendo que contavam com o respaldo institucional dos meios
de comunicação estão se tornando história”, destacou o diretor-executivo do
CPJ, Joel Simon. “Os jornalistas na linha
de frente trabalham de modo cada vez mais independente. O aparecimento do
jornalismo online abriu a porta para uma nova geração de repórteres, mas também
os tornou mais vulneráveis”.
A quantidade de jornalistas online
encarcerados continua crescendo como ocorreu durante a última década, segundo o
censo do CPJ. Ao menos 68 blogueiros,
jornalistas e editores que trabalham na Web estão detidos, e constituem a
metade do total de jornalistas presos atualmente. Repórter, editores e
fotógrafos da mídia impressa pertencem à categoria com o segundo maior número
de encarcerados, com 51 casos em 2009. Os jornalistas de televisão, rádio e
documentaristas constituem o restante.
Ainda que supostos crimes contra o Estado, como subversão, sejam as acusações utilizadas com maior frequência em todo o mundo para aprisionar jornalistas, o CPJ identificou um aumento alarmante no número de casos em que os governos estão contornando o devido processo, sem apresentar acusação alguma. Em 39 casos, mais de um quarto do censo total, as autoridades não tornaram públicas as acusações. A tática está sendo usada em diferentes países, como Eritréia, Irã e Estados Unidos.
Sem a proteção legal de uma acusação formal ou
um julgamento, pelo menos 20 destes jornalistas estão detidos em locais
secretos. Muitos estão sob custódia do governo eritreu, que tem se negado a
confirmar se os prisioneiros continuam vivos. Informes não confirmados da
Internet indicam que três dos jornalistas encarcerados na Eritréia morreram sob
custódia. O CPJ continua incluindo estes jornalistas em seu censo de 2009 como
uma forma de responsabilizar o governo eritreu pelo destino deles.
O número de jornalistas presos na China
diminuiu nos últimos anos, apesar de 24 estarem na prisão, fazendo com que este
país continue sendo o que mais encarcera jornalistas no mundo. Dos jornalistas detidos na China, 22 são freelancers. Os detidos incluem Dhondup
Wangchen, documentarista que foi detido em 2008 depois de gravar material no Tibete
e enviá-lo ao exterior. Um filme de 25 minutos, intitulado “Jigdrel” (Deixando
o medo para trás), produzido com suas cenas, mostra tibetanos comuns falando de
suas vidas sob o domínio chinês. Funcionários de Xining, na província de
Qinghai, acusaram o cineasta de incitar o separatismo.
A maioria dos aprisionados no Irã, segundo país com mais jornalistas
encarcerados, foi detida durante a investida pós-eleitoral do governo contra a
dissidência e a imprensa. Destes, quase a metade é composta por jornalistas
de Internet e inclui Fariba Pajooh, repórter freelancer para meios de comunicação online, rádio e jornais. A
Rádio França Internacional informou que ela foi acusada de “propagar contra o
regime” e pressionada a realizar uma confissão falsa.
“Não faz muito tempo, o Irã contava com uma comunidade jornalística
vigorosa e vital”, acrescentou Simon, do CPJ. “Quando o governo
investiu contra a mídia impressa, os periodistas migraram para o jornalismo
online e alimentaram o nascimento da blogosfera farsi. Hoje, muitos dos
melhores jornalistas iranianos estão no cárcere ou no exílio, e o debate
público, assim como o movimento em favor da democracia, foram pisoteados”.
Cuba, o terceiro país com mais jornalistas detidos, tem 22 redatores e
editores em suas prisões. Com exceção de dois, todos foram capturados
durante a investida massiva de Fidel Castro contra a imprensa independente em
2003. Muitos tiveram a saúde deteriorada pelas condições desumanas e
anti-higiênicas dos presídios. Entre os detidos está Normando Hernández
González, que sofre de doenças cardiovasculares e problemas tão sérios nos
joelhos que possui dificuldades até para se levantar. Hernández González foi
removido para a ala hospitalar de um presídio no final de outubro.
A Eritréia, com 19 jornalistas encarcerados em
1º de dezembro, é o quarto país na lista. As autoridades eritréias têm prendido não apenas repórteres independentes
como, também, jornalistas que trabalham para a mídia oficial. O governo deteve
seis jornalistas estatais no início de 2009 sob suspeita de terem fornecido
informações a organizações noticiosas e sites no exterior.
Com nove jornalistas no cárcere, Myanmar está em quinto lugar na lista. Entre os repórteres sob custódia encontra-se o vídeo-repórter conhecido como “T”, que informou para a organização midiática A Voz Democrática de Myanmar, sediada em Oslo, e ajudou a filmar o documentário “Órfãos do Ciclone em Myanmar”. Praticar jornalismo é tão perigoso em Myanmar, um dos países com maior censura, que repórteres secretos como “T” são um canal crucial com o restante do mundo.
As nações euro-asiáticas do Uzbequistão e
Azerbaijão estão em sexto e sétimo lugar na listagem do CPJ. O Uzbequistão tem
sete jornalistas detidos, entre os quais figura Dilmurod Saiid, jornalista freelancer que expôs abusos
governamentais na agricultura. O Azerbaijão tem seis repórteres e editores
presos, inclusive o jornalista Enynulla Fatullayev, agraciado em 2009 com o
Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa do CPJ. Um sétimo jornalista azerbaijano
morreu sob custódia em agosto, depois de ter negado o atendimento médico
adequado.
Outras tendências e detalhes que surgiram a
partir da análise do CPJ são:
·
• Quase 47 por cento
dos jornalistas incluídos no censo estão detidos sob supostos crimes contra o
Estado, como subversão, divulgação de segredos de Estado e atuação contra os
interesses nacionais, segundo as pesquisas do CPJ. Muitos destes estão encarcerados pelos governos da
China, Irã e Cuba.
· • Em quase 12 por
cento dos casos, os governos utilizaram uma variedade de acusações não
relacionadas ao jornalismo como represália contra redatores, editores e
fotojornalistas críticos. Tais acusações vão
desde violação de regras até posse de drogas. Nos casos incluídos neste censo,
o CPJ determinou que as acusações foram, com grande probabilidade, interpostas
em represália ao trabalho do jornalista.
·
• Violação de regras
de censura – a segunda acusação mais comum – foi utilizada em aproximadamente 5
por cento dos casos. Acusações penais
por difamação, divulgar notícias “falsas”, e participar em insultos étnicos ou
religiosos figuram entre as demais acusações apresentadas contra os jornalistas
que aparecem neste censo.
·
• A Internet e a
mídia impressa representam a maioria deste censo. Depois, aparecem os jornalistas de rádio como a
categoria profissional com maior representação, 7 por cento dos casos. Jornalistas de televisão e documentaristas
representam, cada categoria, 3 por cento dos jornalistas encarcerados.
· • A cifra mundial de 136 jornalistas presos reflete um aumento de 9 por cento em relação a 2008, e representa o terceiro maior número já registrado pelo CPJ durante a última década. (O pico ocorreu em 2002, quando o CPJ registrou 139 jornalistas encarcerados)
- Os Estados Unidos, que mantêm detido o
fotógrafo freelancer Ibrahim
Jassam sem acusações no Iraque, figura pelo sexto ano consecutivo na lista
elaborada pelo CPJ de países que encarceram jornalistas. Durante este período,
as autoridades militares norte-americanas prenderam vários jornalistas no
Iraque – alguns por dias e outros por meses – sem que fossem apresentadas
acusações contra eles ou conduzido o devido processo. As autoridades
norte-americanas parecem ter usado esta tática com menor frequência nos últimos
dois anos.
O CPJ considera que os jornalistas não devem ser presos por realizarem
seu trabalho. A organização enviou cartas expressando sua intensa
preocupação a cada um dos países que possuem um jornalista no cárcere. Durante
o último ano, o trabalho do CPJ ajudou a obter a libertação de ao menos 45
jornalistas que estavam encarcerados.
A lista do CPJ retrata os jornalistas encarcerados até a meia-noite de
1º de dezembro de 2009. Não inclui os muitos jornalistas presos e
libertados durante o ano; o detalhe destes casos pode ser encontrado em www.cpj.org. Os jornalistas permanecem na lista do CPJ
até que a organização determine, com razoável certeza, que foram libertados ou
morreram sob custódia.
Os jornalistas que desaparecem ou são sequestrados por entidades não
estatais, incluindo grupos criminosos, grupos rebeldes ou militantes, não são
incluídos na listagem de jornalistas encarcerados. Seus casos são
classificados como “desaparecidos” ou “sequestrados”.
Detalhes destes casos também estão disponíveis no site do CPJ.

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