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Segundo tempo para a imprensa brasileira

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Texto adicional: Liberdade de imprensa e de mídia são valores ainda em construção

Por Fernando Rodrigues

Os protestos de rua em junho de 2013 no Brasil tiveram ampla cobertura da mídia. Mas pela primeira vez, em muitos anos, os ataques a jornalistas e a meios de comunicação também passaram a ser um tópico frequente do material publicado.

A polícia, soldados e jornalistas tomam posição durante operação em uma favela na capital em novembro de 2010. (Reuters/Sergio Moraes)

 

Embora o Brasil tenha voltado formalmente ao poder civil em 1985, depois de 21 anos de ditadura, os ataques a jornalistas nunca foram um foco de cobertura jornalística constante. Esse desinteresse pelo assunto intriga quem olha o país a partir do exterior. É como se no Brasil não houvesse a percepção de que o trabalho de repórteres é muitas vezes perigoso por aqui.

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Isso tem a ver com o fato de o Brasil ser um país no qual o desenvolvimento tem sido assimétrico do ponto de vista geográfico. Enquanto em algumas regiões há mais garantia de direitos individuais e coletivos, em outras ainda se observa um grande atraso institucional.

Em grandes capitais e regiões metropolitanas está mais consolidado o respeito à mídia, aos jornalistas e à liberdade de expressão. Já em localidades mais remotas do interior isso nem sempre é verdade. O Brasil tem cerca de 5.500 cidades, metade delas muito pequenas. Nesses municípios, é comum o líder político ser também o dono dos principais meios de comunicação.

Quando há crimes contra jornalistas no interior, há dois tipos de reação, nem sempre excludentes: o ataque ao repórter é condenado, mas sempre fica uma dúvida sobre se a motivação foi contra a liberdade de expressão ou apenas de cunho político-partidário.

É claro que um ataque à liberdade de expressão deve ser sempre condenado. Não importa se o dono de um jornal, TV, rádio ou site na internet é um político. Mas essa sobreposição de interesses (jornalísticos e políticos) tem prejudicado a consolidação do direito de jornalistas exercerem livremente sua profissão.

Aí vieram as manifestações de junho de 2013. Os protestos produziram ataques a repórteres em grandes capitais. Muitos dos jornalistas agredidos foram de empresas de mídia consideradas independentes. As agressões partiram tanto das forças de segurança como de manifestantes. Rapidamente instalou-se um debate sobre a necessidade de o Brasil dar condições de segurança para o trabalho de repórteres.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) fez um acompanhamento a respeito dos ataques à mídia e contou 163 episódios de maio de 2013 a março de 2014. A maioria dos casos de violência ocorreu em grandes centros. O assunto passou a frequentar o noticiário de maneira mais frequente. Isso fez com que empresas de mídia, jornalistas e entidades governamentais se mobilizassem para procurar formas de garantir a segurança dos repórteres.

Desde a sua criação, a Abraji tem oferecido cursos e oficinas para treinar jornalistas que atuam em áreas de risco. O governo brasileiro também passou a agir. Em 28 e 29 de março de 2014, o Ministério da Justiça do Brasil promoveu um curso para habilitar profissionais da imprensa a cobrir manifestações de rua.

O Brasil é uma jovem democracia. Certos valores republicanos ainda não estão consolidados. Só agora, 50 anos depois do golpe de Estado de 1964, o percentual dos que apoiam a democracia passou de 60%. A liberdade de imprensa e as condições para o trabalho livre da mídia são ainda novidades em várias regiões. Os protestos de junho de 2013 mostraram que esses direitos podem ser frágeis também em grandes capitais. O fato de esse debate agora ser mais natural é um bom sinal. O rumo está certo, mas o caminho a ser trilhado ainda é longo.

 

Fernando Rodrigues é jornalista, fundador da Abraji e membro do Conselho Curador do Fundo de Apoio ao Jornalismo Investigativo (F/ABRAJI). Trabalha no jornal Folha de S.Paulo e no portal de notícias UOL.

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